Evandro Milet – | 07/06/2026
A China produz 1 bilhão de toneladas/ano de aço, enquanto o Brasil produz 33 milhões. A China tem mais de 120 fábricas de automóveis em disputa predatória em um mercado que não comporta tanto. A saída é exportar, com fortes subsídios governamentais, e inundar o mercado internacional com preços fora da realidade, em dumping claro. A planta da ArcelorMittal no Espírito Santo sempre foi considerada, internamente, a mais produtiva do grupo e mesmo assim sofre com o dumping chinês, adiando a decisão de implantação de um laminador de tiras a frio que daria um novo salto para oferta de insumos para a indústria automotiva e linha branca.
Indústrias no Brasil que usam aço, por exemplo, autopeças, gostariam de poder usar o aço barato importado em seus produtos e aumentar sua competitividade. Os produtores de automóveis, por sua vez, prefeririam, por custo, importar as autopeças completas, certamente mais baratas que as produzidas no Brasil. E naturalmente, os consumidores prefeririam importar os automóveis em vez de comprar das indústrias no país, considerando os altos impostos na importação. Como resolver essa equação sem quebrar a indústria do país?
Recentemente, em artigo publicado no Valor Econômico, o economista Dani Rodrik anunciou a sua mudança de ideia em relação ao tradicional papel da indústria para o crescimento econômico, enfatizando o desenvolvimento de capacidades produtivas em serviços que absorvem mão de obra, na sua maioria não-transacionáveis, isto é, hamburger no lugar de aço. Países que não têm mão-de-obra qualificada e nível de educação necessária, deveriam seguir o caminho de aumento da produtividade com serviços para atingir a melhoria de vida da sua população, e deixar a indústria com quem dispõe das condições para isso, segundo seu novo pensamento.
É um pensamento suicida para o Brasil. Até recentemente, as empresas de maior valor de mercado no mundo eram, principalmente, as de software como Google, Microsoft, Amazon, Meta e Apple(essa com hardware também). Há pouco tempo, a Nvidia assumiu a dianteira, seguida da Apple, em um ranking onde, entre as dez primeiras, só a Aramco, de petróleo, aparece fora do setor de tecnologia. E aquelas que se criaram no software partem para desenvolver seus próprios chips, por estratégia de sobrevivência. A revolução provocada no software pela IA explode na IA física exigindo hardware e produtos físicos para data centers imensos, robôs mecânicos, fibras óticas, satélites de comunicação e sensores de IoT. E uma coisa puxa a outra: data centers pedem muita energia que requer placas solares, torres eólicas, cabos de energia, equipamentos elétricos, terras raras, mineração… e aço.
Precisamos colocar um ponto importante nessa discussão: existe uma diferença fundamental entre usar tecnologia e desenvolver tecnologia. Quem desenvolve pode comandar uma cadeia inteira como faz a Embraer usando peças de outros países, mas tendo o domínio do projeto que lhe permite lançar novos tipos de aeronaves. Quem só usa tecnologia fica vulnerável.
Nas relações internacionais conflituosas do momento isso fica claro. O que se chamava antigamente de complexo industrial-militar agora se chama complexo industrial-militar-digital. Até nesse meio, tudo está se transformando: pequenos drones dão surra em tanques e robôs humanoides começam a substituir soldados. Funcionários de Google e Amazon exigiam que suas empresas não participassem de projetos de armas. Acabou isso. Os que reclamaram ou se calaram ou saíram.
Países com poder industrial forte sentam à mesa. As outras vão para o cardápio e tem que se submeter.
Lamentável é ver uma eleição presidencial se aproximando e a pauta é corrupção, segurança e outros temas que deveriam ter ficado no século passado. Para o novo mundo interessa educação, engenharia, tecnologia, produtividade, reformas, melhoria radical do ambiente de negócios e …indústria.
Que Dani Rodrik vá pregar em outro lugar. Aqui não, violão.