Publicado em A Tribuna em 30/08/2026
Estima-se que cerca de 9 a 11 milhões de soldados morreram na Primeira Guerra Mundial e entre 21 e 25 milhões na Segunda, sem contar as dezenas de milhões de vítimas civis.
Mas a guerra mudou de formato. Campos de batalha distantes, trincheiras, exércitos marchando e tanques foram substituídos, em grande parte, por tecnologia. Os conflitos modernos ocorrem simultaneamente no espaço, nas profundezas dos oceanos, dentro de chips de computador e nas telas dos celulares. A tecnologia militar hoje não busca apenas derrotar o inimigo fisicamente, mas paralisar sociedades inteiras sem que um único soldado precise cruzar uma fronteira geográfica.
A aviação militar cedeu espaço para os drones, inclusive os pequenos, adaptados com explosivos ou câmeras de alta resolução, capazes de invadir janelas e atacar alvos com alta precisão. A IA processa volumes imensos de dados em tempo real para identificar alvos e sugerir estratégias de ataque em segundos. Robôs terrestres autônomos assumem postos de alta periculosidade, atuando no desarmamento de bombas e são capazes de reconhecer silhuetas humanas, rastrear calor corporal, identificar pessoas no escuro, através de fumaça ou mesmo atrás de paredes finas. A tecnologia combina câmeras infravermelhas, sensores LIDAR e processadores de IA que analisam movimento, temperatura e distância em tempo real.
Em outro ambiente, estima-se que mais de 95% do tráfego de dados da internet mundial passe por uma malha de cabos submarinos no fundo dos oceanos. Um ataque coordenado a esses cabos ou a infraestruturas de energia teria o poder de desconectar países inteiros, congelando o sistema financeiro em minutos. A corrida armamentista alcançou também a órbita terrestre com armas no espaço, que incluem satélites capazes de desativar ou colidir com os sistemas GPS e de comunicação.
Nas redes, a disputa geopolítica exige também espionagem eletrônica capaz de roubar segredos industriais, dados governamentais e códigos de defesa. Mais sutil ainda, a mente da população civil virou um território a ser conquistado através da guerra de mensagens, onde fábricas de robôs virtuais manipulam a opinião pública e inflamam divisões políticas internas. Nesse cenário, as Big Techs acumulam um poder de influência maior do que muitos Estados soberanos, controlando o fluxo de informações que chega ao público e possuindo a capacidade técnica de barrar ou impulsionar narrativas com o clique de um botão.
A criação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o debate sobre a regulação das plataformas digitais são tentativas de blindar o ambiente digital e frear a influência das Big Techs no debate público nacional. Mas o orçamento destinado ao desenvolvimento de uma IA nacional, porém, ainda é muito baixo, o que deixa o país vulnerável a ataques e sequestros contra as redes de energia e sistemas financeiros. O Brasil está se dando conta que deveria ter investido na criação de uma indústria de semicondutores e chips própria para não depender de tecnologia estrangeira em seus equipamentos de defesa. Política industrial e tecnológica passou a ser sobrevivência.
Para o futuro, o país precisa urgentemente investir na formação de cientistas de dados e engenheiros de defesa, evitando a fuga de cérebros para o exterior. A soberania do Brasil no século XXI dependerá diretamente de sua capacidade de entender que uma eventual invasão não virá por terra ou mar(há controvérsias pós-Maduro), mas pelos caminhos invisíveis da tecnologia e das redes digitais.