Evandro Milet – Tribuna online – | 03/08/2026
Durante muitos anos, empresas fizeram seus ciclos anuais de planejamento estratégico de longo prazo, com metas a serem cumpridas, desdobradas em planos táticos e operacionais e acompanhamento permanente. De alguns anos para cá, a velocidade alucinante das mudanças deu a impressão que seria inútil planejar a longo prazo. Em 1999 a McKinsey introduziu a ideia de dividir a estratégia em três horizontes: desenvolvimento socioeconômico no longo prazo.
Isso não significa adotar políticas isolacionistas ou nacionalistas anacrônicas, mas sim buscar as melhores alternativas para lidar com esse risco geopolítico. Governos e o setor privado de potências médias, como o Brasil, precisam, por exemplo, coordenar esforços para incentivar a criação de infraes
Apesar disso, persiste uma tendência do nosso cérebro limitado, da qual a matemática discorda, de que todas as funções são lineares e contínuas, dificultando a visão sobre descontinuidades e exponenciais. Essa característica faz com que pensemos no futuro como uma continuidade suave do presente. Não é. Planejar não pode partir do presente, tem que partir do futuro.
Nos Estados Unidos, o planejamento era levado por cada empresa, longe de uma política industrial de governo. Aí apareceram os chineses. Na pandemia, o mundo percebeu que a cadeia de fornecimento em saúde era dominada, em vários insumos, na quase totalidade, por eles. Logo depois ficou claro que a China tinha se transformado no parque industrial do mundo e com a novidade do domínio de tecnologias. Os Estados Unidos acordaram e o Governo Biden lançou uma inédita política industrial para recuperar o atraso. Com Trump, a globalização implodiu de vez e os países se fecharam. A China criou o sucesso com a liberação de um capitalismo quase predador, os planos quinquenais, uma política industrial focada no futuro e uma estratégia política de segurança, mesmo com restrições à liberdade individual.
Como o petróleo poderia ser um problema no futuro, as energias alternativas foram turbinadas com a lógica de dominar a tecnologia e criar novas indústrias associadas, com a disciplina de se espalhar pelo mundo. Desse modo, tomaram conta da energia solar, dos veículos elétricos e dos seus componentes. A segurança geopolítica percebeu o futuro do mundo digital e os planos quinquenais carregaram a ideia de uma independência que passou para o ocidente como uma excentricidade atrasada de criar seus próprios aplicativos e redes. Até que a ficha dos países ocidentais caiu e um aparente domínio inexpugnável da tecnologia digital foi confrontado. As tentativas de bloquear o caminho tecnológico perderam o timing. Na IA eles chegaram junto e o mundo se deu conta que eles dominavam até os insumos mais primários, como as terras raras. Se faltava o exclusivo monopólio da holandesa ASML na fabricação dos impressionantes equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV), fundamentais na microeletrônica, desde a semana passada não falta mais. Já conseguiram criar algo semelhante.
Que lição tiramos disso? Retomar a ideia de Planos Nacionais de Desenvolvimento da década de 1970 que, apesar dos graves desequilíbrios macroeconômicos e do contexto autoritário da época, dotaram o país de sua matriz industrial de base, do setor petroquímico à infraestrutura de energia que sustentamos até hoje. Nesse aspecto, o Espírito Santo dá exemplo desde 2006, com seus planos para 2020, 2025 e 2035, com parcerias entre governo e iniciativa privada.
Mas é fundamental começar pela visão de futuro como os chineses fizeram. E, principalmente, executar o que foi planejado, como eles também fizeram.