Evandro Milet – A Tribuna – 23/08/2026
As consequências de longo prazo de crescer 1% ou 4% ao ano são enormes: no primeiro caso, o PIB dobra em cerca de 70 anos; no segundo, em apenas 18. O governante que não dedicar toda a prioridade para o crescimento contribui para um atraso de 52 anos do país. Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou um mapa que mostrava o Brasil de cabeça para baixo. A imagem tornou-se a metáfora perfeita para a atual realidade econômica e social do país. O Brasil parece invertido, não por razões geográficas, mas pelas escolhas políticas e econômicas que desafiam a lógica e a racionalidade.
No centro dessa inversão está uma taxa de juros estratosférica que paralisa o setor produtivo. Captar recursos na B3 também não funciona, o dinheiro está todo na renda fixa, sem riscos. A imensa maioria dos economistas defende as mesmas medidas para a redução de juros, sem sucesso. Em vez de focar na responsabilidade fiscal, prefere-se culpar a Faria Lima, confundindo causa com consequência. A troca na presidência do Banco Central mostrou a fragilidade desse argumento: o novo presidente manteve a política de juros, priorizando o rigor técnico e o próprio diploma, em detrimento de palpites políticos sem base. O Brasil é o paraíso dos rentistas, não por culpa deles, mas por culpa de políticas econômicas e prioridades equivocadas.
Enquanto isso, empresas e cidadãos se endividam e quebram sob taxas impagáveis. Iniciativas como o Desenrola aliviam apenas o sintoma imediato. É como oferecer ar-condicionado no inferno ou dar uma pá a quem precisa de uma corda para sair do buraco.
Essa dinâmica cria um ciclo vicioso de dependência estatal. Programas sociais sem foco cumprem papel emergencial, mas acabam desestimulando o emprego formal em muitos casos. No lugar de crescer e gerar empregos de qualidade – o melhor programa social que existe – o governo usa o orçamento para tentar consertar a situação e aumenta a dívida, que alimenta os juros, numa roleta russa cansativa. Estatísticas comemoradas de pleno emprego escondem a fuga para o trabalho precário de entregadores de pizza. Como dizia Churchill: Não há nada que o governo possa lhe dar que não tenha tirado de você antes.
Para piorar, recorre-se ao manjado truque de deixar despesas e contas importantes fora das regras fiscais. O arcabouço fiscal já não cumpre a finalidade de controlar gastos. Sem superávit primário, o país alimenta a inflação e não recupera o grau de investimento perdido no governo Dilma, o que afasta os grandes fundos internacionais que poderiam turbinar a infraestrutura deficiente.
O reflexo direto desse descontrole é a escassez de verbas para o que importa. Sem investimentos em logística, infraestrutura e tecnologia, o Brasil perde eficiência global. O agronegócio, por exemplo, opera com custo de escoamento muito maior do que concorrentes como os Estados Unidos. Na tecnologia, em IA, terras raras ou data centers, fundamentais na vida moderna, faltam recursos e prioridade enquanto sobram burocracia e lentidão.
O caminho para a normalidade exige que os juros caiam de forma sustentável, o que só ocorrerá se o governo assumir um esforço real e corajoso para cortar gastos públicos como em Lula 1, ao manter a política de FHC. Lamentável que as opções políticas também sejam desanimadoras, por históricos tenebrosos de retrocesso civilizatório e institucional. Enquanto isso, segue o “gasto é vida” de Dilma e vamos, de cabeça para baixo, tapando o sol com a asneira.