A Inteligência Artificial também é coisa nossa

Em 2008, o Professor Alberto Ferreira de Souza da Ufes, com sua equipe, desenvolveu o melhor algoritmo do mundo para reconhecimento facial. Pena que àquela altura a veia do empreendedorismo ainda não tivesse despertado nele, até porque pouco tinha despertado no Espírito Santo e mesmo no Brasil com alguma relevância. Virou artigo publicado em revistas especializadas, mas ficou nisso. 

Era uma época de distanciamento entre empresas e academia. Muitos ainda entendiam que fazer ciência aplicada era uma forma de atuação indigna para um acadêmico. A explosão do mundo das startups está chacoalhando esses conceitos esclerosados, cada vez mais atraindo acadêmicos para o mundo do empreendedorismo, o mundo das deeptechs, startups com soluções vindas das bancadas dos pesquisadores. Seja por iniciativa dos próprios pesquisadores ou arrastados por alunos brilhantes que não se conformam mais com a perspectiva de um emprego tradicional e  que carregam junto os professores para uma nova startup.

O Laboratório de Computação de Alto Desempenho, sob o comando do Prof. Alberto, conseguiu a façanha de desenvolver a tecnologia que permitiu uma viagem pioneira de um carro autônomo de Vitória a Guarapari com a missão de parar na porta no icônico Restaurante Curuca. E assim foi feito em 2014!

Dessa vez o projeto não ficou só no paper. Já gerou duas startups, a Lume Robotics e a Motora.ai, onde o acadêmico depositou sua veia empreendedora como sócio de alguns alunos. A Lume atraiu o grupo Águia Branca e parcerias importantes com Vale, Mercedes e Marco Polo para possibilitar ônibus e caminhões autônomos capazes de circular em ambientes mais controlados, considerando que o trânsito em vias públicas ainda é um problema dependente de mais tecnologia e legislação específica.

A alta competência da equipe atraiu também uma gigante tecnológica. A Embraer veio para os projetos de veículos autônomos e, pela primeira vez no mundo, uma aeronave fez o seu taxiamento de forma autônoma com os algoritmos da Ufes. A confiança na competência da equipe trouxe a Embraer para fazer seus projetos do eVTOL, o popular carro voador,  em parceria com esse time. 

Em 2022, por nova iniciativa do Prof. Alberto, foi criado na Ufes o I²CA – Instituto de Inteligência Computacional Aplicada, com apoio financeiro da ArcelorMittal e da Fapes, para aprofundar pesquisas e formar pessoal em Inteligência Artificial. 

O boom da IA, a partir do final de 2022 com o lançamento do ChatGPT, pega o I²CA com competência para colocar o Espírito Santo em posição de ponta no Brasil. A Ufes adquiriu o supercomputador Atena, com três placas nvidia A100 e 80 GB de memória, para estudo dos modelos e aprendizado científico, uma infraestrutura fundamental para o desenvolvimento de aplicações em IA.

A IA se mostrou a mais disruptiva tecnologia e objeto de uma corrida desenfreada entre as grandes empresas do setor e entre países. Com tantos bilhões de dólares em jogo, há espaço para que se faça algo aqui? Sim, a Embraer é testemunha e player global de aplicação de IA e veio buscar competência aqui no estado. Há startups criadas e muitas outras podem surgir se a cultura da IA se espalhar aqui. Para isso é fundamental uma atenção especial e recursos que não podem ser modestos. Existe de fato a possibilidade de colocar o ES com ator relevante em IA no país.

Se o Fundo Soberano foi criado para preparar o futuro do estado e o mundo está mostrando que o futuro em todas as áreas passa pela inteligência artificial, não tem que pensar muito e agir rápido para fortalecer e ampliar o espaço que essa tecnologia já conquistou por aqui.

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Publicado no Portal ES360 em 03/03/2024