Evandro Milet – Folha Vitória – 24/09/2026
O modelo educacional focado em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) surgiu nos EUA como a resposta para suprir a demanda explosiva do mercado tecnológico. No entanto, a evolução desse conceito para STEAM — que integra a letra “A” de Artes — reflete a percepção de que a inovação necessita da criatividade humana. Einstein dizia que ao tocar violino, seu cérebro entrava em um estado de fluidez, e era nesse momento que novas conexões e soluções surgiam. Ele acreditava que música e ciência eram expressões de uma mesma busca pela beleza e coerência. É importante notar que o conceito de “Arts” nas universidades americanas envolve também toda área de humanas.
Para o Brasil, essa transição para STEAM está diretamente vinculada ao avanço da economia criativa, um ecossistema que engloba, entre outros temas, design, audiovisual, literatura, música, teatro, artes plásticas, museologia e galerias de arte. De acordo com dados da Firjan, a indústria criativa responde por 3,59% do PIB nacional, sustentando mais de 7,4 milhões de trabalhadores no país. Diante do avanço avassalador da Inteligência Artificial (IA), estudos globais estimam que tarefas ligadas a até 12% da força de trabalho atual podem ser automatizadas ou substituídas por algoritmos.
Em contrapartida, projeções oficiais do Observatório Nacional da Indústria revelam que a economia criativa brasileira deve gerar 1 milhão de novos empregos até 2030, impulsionada justamente por setores que exigem o discernimento, a originalidade e a sensibilidade humana, tornando-se um porto seguro contra o desemprego tecnológico.
A televisão brasileira, por exemplo, impulsiona diretamente dezenas de milhares de postos de trabalho e engloba uma cadeia produtiva complexa. Esse avanço técnico e criativo reflete-se nas premiações recentes do cinema nacional, que vive um grande momento de aclamação internacional como aconteceu com “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Como bem definiu o poeta Ferreira Gullar, “A arte é necessária porque a vida não é suficiente”.
Paralelamente, a relevância do Brasil no mercado global de entretenimento transformou o país em parada obrigatória no roteiro das grandes apresentações musicais. A infraestrutura de grandes arenas nacionais atrai as maiores e mais complexas produções técnicas da atualidade, movimentando turnês de superestrelas internacionais que exigem uma enorme cadeia de engenharia de som e iluminação. A música brasileira também ganhou uma variedade enorme de ritmos expressos em apresentações de grande porte e nova leva de empregos.
Também o avanço técnico das experiências imersivas nos museus redefiniu a relação do público com a arte, utilizando projeções mapeadas e realidade virtual através de equipes multidisciplinares. O próprio Steve Jobs, ícone da tecnologia, costumava citar Leonardo da Vinci – que, além da pintura, também deixou sua marca na ciência, especialmente na anatomia e na mecânica – ao dizer que “A simplicidade é a máxima sofisticação”. E completava com uma máxima que define o espírito do STEAM: “Tecnologia sozinha não é suficiente – é a tecnologia, casada com artes e humanidades, que criam o resultado que nos encantam.”
Portanto, o problema brasileiro de enxergar as disciplinas exatas separadas das manifestações humanas cai por terra diante da realidade do mercado e do desenvolvimento cognitivo. A inclusão das artes humaniza e profissionaliza as ciências exatas. Como defendia Paulo Freire, é por meio da arte que se desenvolve a percepção e a imaginação para apreender a realidade, gerando a capacidade crítica necessária para transformá-la. Diante dos robôs e dos algoritmos, o papel de manter o que temos de mais genuíno recai sobre as disciplinas criativas.
As indústrias antigamente apenas fabricavam produtos. Hoje elas se preocupam com design, marketing e redes sociais. Você pode fabricar um tênis em qualquer lugar, mas só conseguirá vendê-lo por 300 dólares se conseguir associar uma história ao produto ou à marca.
Melissa Nobles, reitora da Escola de humanidades, artes e ciências sociais do MIT sintetiza: “Ainda bem que a literatura, a música, as artes e as ciências humanas existem para nos lembrar o que significa ser humano”. Inspirado, o designer John Maeda ressalta que o modelo STEM é capaz de resolver problemas, mas as artes descobrem quais problemas realmente valem a pena ser resolvidos.
O Brasil necessita urgentemente aumentar a pontuação nos critérios internacionais de avaliação do Pisa em Português, Matemática e Ciências. Ficamos no 68º lugar geral em 91 países. Escandalosamente, cerca de 60% dos jovens terminam o ensino médio na rede pública sem saber o básico em matemática. Porém, somente ao unir de forma definitiva a educação, a tecnologia e as artes seremos capazes de formar cidadãos autônomos, inventivos e prontos para liderar o século XXI.
A educação deve mirar a tecnologia, mas também as artes – Folha Vitória