Publicado em A Tribuna em 18/10/2026
Uma queda acentuada nas taxas de juros básicos tem o potencial de transformar profundamente a estrutura econômica do Brasil. Começa por impulsionar o consumo de bens duráveis como automóveis e eletrodomésticos e o financiamento imobiliário, aquecendo a construção civil.
Como a renda fixa deixa de oferecer retornos fáceis e elevados, investidores migram em massa para a renda variável, com uma onda de IPOs (ofertas públicas iniciais) e follow-ons na bolsa de valores, permitindo que empresas captem bilhões diretamente para financiar sua expansão. Essa mesma busca por rentabilidade dirige recursos para capital de risco (Venture Capital) e Private Equity. Investidores institucionais passam a alocar recursos em startups e empresas de médio porte com alto potencial de crescimento, acelerando a inovação tecnológica e criando novos empregos. Isso aconteceu, por exemplo, na queda de juros durante o governo Temer, com investidores procurando startups para investir.
Hoje vemos uma distorção acontecendo. Enquanto o orçamento dirige muitos recursos públicos para P&D, as altas taxas de juros travam o crescimento das startups e das empresas que poderiam investir nas inovações criadas ou empregar as pessoas formadas. Os altos investimentos públicos em P&D se perdem em startups que não decolam ou alimentam a fuga de cérebros.
É importante ressaltar que o mercado percebe a intenção e já começa a considerar a nova realidade apenas com base nas expectativas reais, mesmo antes que a queda de juros de fato aconteça. Com isso, a preocupante velocidade de crescimento da dívida pública diminui. Paralelamente, ocorre uma redução substancial do Custo Brasil, já que o custo financeiro para carregar dívidas, financiar grandes obras de infraestrutura, adquirir maquinário e manter o capital de giro despenca. Indústrias conseguem modernizar suas plantas e expandir a capacidade instalada, aumentando a produtividade e a competitividade dos produtos nacionais frente à avalanche das importações. Há redução significativa de RJs e inadimplências. A desindustrialização começa a ser revertida.
A confiança gerada atrai empresas multinacionais que buscam expandir projetos de longo prazo. Se acontecer a recuperação do grau de investimento pelas agências internacionais de risco, perdido no governo Dilma, e que depende também da queda dos juros, muitos fundos de investimento no exterior são liberados para entrar no país.
Contudo, cortes dessa magnitude trazem o risco de pressão inflacionária se não forem calibrados com precisão. Caso o consumo das famílias e a demanda por crédito disparem em velocidade muito superior à capacidade real de produção, o país pode enfrentar desabastecimento e o repasse imediato de custos para os preços finais. Para que a queda de juros se sustente no longo prazo e não resulte em um voo de galinha, é vital um aumento robusto na oferta de produtos e serviços, garantindo que o crescimento da produtividade caminhe lado a lado com a expansão da demanda e blindando a economia contra o descontrole de preços.
Resta torcer para que o novo governo, qualquer que seja, tome a atitude decidida de controlar os gastos que permitam essa queda. E que se abandone de vez a interpretação ignorante e conspiratória que os juros altos são comandados pelo interesse da Faria Lima, dando razão a Roberto Campos quando dizia que a burrice nacional não associa o efeito com as causas.