Formar gente é o principal motor de política industrial

Evandro Milet – A Tribuna – 27/09/2026

A história brasileira é repleta de tentativas de impulsionar a indústria por meio de subsídios e barreiras comerciais. O sucesso de uma política industrial, contudo, não reside no isolamento, mas na formação de pessoal qualificado, na absorção de conhecimento no exterior, na boa gestão e na disputa pelo mercado global. O Brasil coleciona exemplos de sucesso e fracasso que ilustram essa dinâmica.

Na década de 1970, o país tentou implementar a Política Nacional de Informática. Inspirada superficialmente no modelo japonês de autonomia tecnológica, a iniciativa faliu: faltava pessoal técnico qualificado, a escala do mercado interno era insuficiente e não havia foco em exportação. O resultado foi a obsolescência tecnológica. O Japão, por outro lado, massificou a educação básica e erradicou o analfabetismo já na virada do século XX, enquanto o Brasil só alcançou a universalização do ensino fundamental nos anos 1990. Na mesma linha, a Coreia do Sul aliou a educação em massa a uma agressiva política de exportação apoiada pelo governo.

Esse choque de visões fica evidente ao comparar a Embraer com a cadeia do petróleo. Enquanto a Embraer utilizou a engenharia do ITA para projetar aviões e integrar componentes mundiais de ponta com competitividade global, a política de conteúdo local no setor de petróleo focou em exigir índices percentuais de fabricação de peças no país. Essa barreira burocrática engessou projetos de exploração, priorizando o protecionismo em vez de focar na qualificação internacional de fornecedores.

Nossos maiores saltos tecnológicos nasceram do modelo oposto: cérebros formados fora. Ao enviar cientistas para as melhores universidades do mundo desde a década de 1970, o Brasil criou competência própria. Esse ecossistema foi viabilizado por líderes como Ozires Silva, Eliseu Alves e Alysson Paolinelli, unindo verbas federais e a formação no exterior.

Criada em 1973, a Embrapa enviou mais de 2.000 pesquisadores para pós-graduações no exterior, notadamente em universidades americanas. No setor aeroespacial, a Embraer nasceu atrelada ao ITA, que foi estruturado em parceria com o MIT, além de enviar mais de 400 engenheiros para especializações na Europa e nos EUA.

Esse modelo também impulsionou a Petrobras, que, por meio do Cenpes, treinou mais de 500 engenheiros em centros globais. Na saúde, a Fiocruz internacionalizou seus quadros enviando mais de 300 pesquisadores para instituições como o Instituto Pasteur e Oxford, permitindo o domínio da biotecnologia.

Outros casos de sucesso nacional estão ligados à gestão de vantagens comparativas, como na mineração e no setor de florestas plantadas para celulose. Há, ainda, vitórias que nasceram da pura competência empresarial para capacitar pessoas e acessar o mercado externo, como demonstram a WEG, a Gerdau e a Marcopolo.

A lição é clara: transferir tecnologia não é comprar maquinário, mas capacitar quem o projeta. Uma nova política industrial deve inverter os erros do passado. Em vez de blindar o mercado com barreiras alfandegárias ou índices de conteúdo local que geram ineficiência, o foco do Estado deve ser a base educacional, o financiamento de PD&I, a formação internacional de excelência e a ênfase em vender para o mercado externo. A soberania industrial moderna não se conquista pelo isolamento, mas pela inserção global, cujo passaporte é o investimento na mente de nossos profissionais.

Formar gente é o principal motor de política industrial

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