Publicado em 21/12/2025 no Portal ES360
Um homem, — era aquela noite amiga,/Noite cristã, berço no Nazareno, —/
Ao relembrar os dias de pequeno,/E a viva dança, e a lépida cantiga,/
Quis transportar ao verso doce e ameno/As sensações da sua idade antiga,/
Naquela mesma velha noite amiga,/Noite cristã, berço do Nazareno./
Escolheu o soneto… A folha branca/Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,/A pena não acode ao gesto seu./E, em vão lutando contra o metro adverso,/Só lhe saiu este pequeno verso:/”Mudaria o Natal ou mudei eu?”.
Nesse delicado “Soneto de Natal”, Machado de Assis nos faz visualizar a nossa própria imagem, quantas vezes nostálgicos de um mundo inocente.
Todos nós guardamos flashes da infância, momentos marcantes bons ou ruins, mas também imagens aparentemente sem importância que, por um motivo ou outro, ficam registradas. Em São Luís, Maranhão, o pai médico, das antigas, e a lembrança de quebrar o termômetro para brincar com o mercúrio, com sua forma instigante, vem junto com a bronca monumental. Um vizinho que morreu engasgado com um osso de galinha; esmagar caco de vidro no trilho do bonde para fazer cerol; jogar bola no meio da rua e parar para deixar passar os raros automóveis; o revólver de espoleta, hoje politicamente incorreto; a bola de couro no futebol; Vick Vaporub, mercúrio cromo e o famigerado Merthiolate. Quebrar a cabeça na parede depois de uma corrida de brincadeira, o sangue jorrando e os assustadores pontos no hospital. Subir no pé de carambola e comer goiaba no pé; açaí com farinha na tigela; o filtro de barro; banho frio no tanque; dormir na rede, moedor de carne; espanador, palha de aço e enceradeira no chão de tacos. Assistir o voo curto de uma galinha do quintal de casa para o vizinho, imagem que se usa hoje para a economia do país, que não se sustenta por muito tempo. O avô libanês cultivando, vã esperança, uma parreira para tentar ter folha de uva para o charutinho. Visitar a casa da empregada na favela e o choque de ver os meninos pelados sem dinheiro para roupas. Chegando criança no Rio de Janeiro e sendo apresentado a um cobertor. Difícil imaginar um na linha do Equador. Ouvir o pai lendo contos de Mil e uma Noites, lendo Malba Tahan e os gibis(incrível! as crianças não leem mais gibis!). Professor Pardal, a piscina de moedas do Tio Patinhas, os irmãos Metralha, o Fantasma que anda, o clube do Bolinha(machistas!), Tom e Jerry no cinema(a pancadaria não pode mais). A namorada do Super-homem ainda era a Miriam Lane, não sei quando ela mudou de nome. Aula de caligrafia na escola, mãe encadernando livros e cadernos, disputa para ser o primeiro da classe e ganhar medalha(Também não pode mais. Politicamente incorreto.).
As lembranças das crianças atuais no futuro serão mais do mundo virtual, dentro de casa ou ambientes fechados e cercados, programas de TV, restrições por segurança, muitos pais separados, menos irmãos, jogos virtuais.
Mudaria o Natal ou mudou o mundo?
Bom, pelo menos a pena não está frouxa e manca. Feliz Natal para todos!.
Uma crônica: Mudaria o Natal ou mudei eu? – ES360
