Publicado 23/11/2025 no Portal ES360
Scott Thompson olhou para o relógio. Estava correndo atrás do tempo. Tinha uma longa lista de afazeres até o fim de semana e já era quinta-feira. Como Presidente da PayPal, o maior sistema de pagamento pela internet do mundo, ele gerenciava a alternativa a cheques e cartões de crédito da rede. Ainda assim, tinha prometido dar 20 minutos do seu tempo a um garoto que alegava ter a solução para o problema de golpes de pagamento online, fraudes de cartões de crédito e furto de identidade eletrônica. O pedido para atender o garoto partira de um investidor importante que queria uma avaliação se a coisa fazia sentido. Não tinha como não atender, mesmo descrente, considerando o porte da PayPal, sua competência fundamental nesse tema e a quantidade de gente envolvida nesse processo. Como você criou a sua solução?, perguntou ele. “Caçando terroristas”, respondeu o garoto. Sua unidade do exército de Israel fora incumbida de rastrear atividades terroristas on-line. Resumindo a história, contada no livro Startup Nation, de Dan Senor e Saul Singer, sobre a estrutura de inovação em Israel, o garoto tinha razão e a PayPal comprou a startup. A situação de Israel, cercada de inimigos por todos os lados, exigia um rigor absoluto e uma competência absurda nessa busca online, por onde transitavam dinheiro e informações.
Essa história exemplifica a ideia que a competência e as exigências de alguns setores econômicos ou estratégicos podem criar a oportunidade para startups ou mesmo novas indústrias fornecedoras, que estejam mergulhadas em problemas desses setores, se lancem no mercado com inovações.
Isso aconteceu nos Estados Unidos a partir da indústria de defesa e da corrida espacial, aconteceu na China com o desenvolvimento do uso da energia solar e aconteceu com a Finlândia com a base florestal, por exemplo.
Transportando para o Brasil, cabe imediatamente pensar que deveríamos ter essa competência no agronegócio, por exemplo. Se o Brasil é um player fundamental, porque as indústrias de máquinas agrícolas, insumos e agtechs não são majoritariamente brasileiras? Se temos a maior biodiversidade do planeta, por que não temos participação relevante na indústria farmacêutica?
Uma resposta óbvia é a carência na educação e formação de pessoal. Se Israel, EUA, China e Finlândia aproveitaram as oportunidades foi porque, antes de tudo, tinham uma base educacional forte, com ciência e tecnologia avançadas.
Muitos países pequenos em território e população conseguiram aproveitar oportunidades a partir de situações naturais ou criadas. Taiwan, Holanda, Singapura, Dinamarca, Nova Zelândia, por exemplo.
Essa comparação nos remete localmente ao Espírito Santo, com sua população de quatro milhões de habitantes e território pequeno para o padrão de outros estados brasileiros, mas comparável aos pequenos países citados.
O que podemos aproveitar das circunstâncias locais para criar e encorpar empresas inovadoras que alimentem um novo ciclo de desenvolvimento?
Alguma coisa já aconteceu a partir das indústrias de base(mineração, siderurgia, celulose e petróleo) e a rede de fornecedores criadas na metal-mecânica e engenharia, que se espalha pelo país com a expansão de novos empreendimentos. A inovação aberta, praticada pelas grandes empresas, abriu um universo de oportunidades para startups que se alimentaram de ilhas de competência das universidades locais como o caso da inteligência artificial na Ufes( e agora com fotônica) e o ímpeto de criação de incubadoras no Ifes(já são 18 pelo estado). O grande litoral, a localização central do estado, o explosivo mercado de e-commerce, as grandes plantas exportadoras, uma ferrovia estratégica, novos portos e ferrovias jogam na nossa cara as oportunidades da logística e todos os seus desdobramentos em fornecedores especializados. Se o Brasil é conhecido na agricultura pelas grandes culturas, a característica de pequenas propriedades no ES abre oportunidade para agtechs e indústrias voltadas para esse universo espalhados por todo o país e pouco aproveitado.
De novo, a nossa realidade está aí para ser aproveitada com novas oportunidades. Ser pequeno não é destino.
Ser pequeno não é destino – ES360
